Produto com Defeito: Troca, Conserto ou Dinheiro de Volta (2026) | DEFECON

O que você vai encontrar neste artigo

  • A diferença entre não gostar do produto e o produto ter vício — e por que ela decide tudo.
  • O que muda quando a compra foi feita presencialmente, na loja física.
  • Os prazos que não se confundem: para reclamar (art. 26) e para consertar (art. 18, § 1º).
  • Por que o prazo do art. 26 não corre durante a garantia contratual.
  • Por que produto essencial não é lista fixa, segundo o entendimento atual do STJ.

Neste artigo

  1. Compra presencial, troca por preferência e vício
  2. Vício de qualidade e fato do produto
  3. Vício aparente, vício oculto e natureza do bem
  4. Garantia legal, contratual e estendida
  5. Os dois prazos e a reclamação que obsta a decadência
  6. Vencido o prazo, a escolha é do consumidor
  7. O mesmo defeito que volta
  8. Uso imediato e produto essencial
  9. Contra quem reclamar
  10. Vício oculto e vida útil do bem
  11. Produto usado, mostruário e avaria conhecida
  12. Vício redibitório
  13. Exemplos na prática
  14. Como provar e de quem é o ônus
  15. Dano moral
  16. Quais pedidos você pode fazer
  17. Reclamação administrativa e passo a passo
  18. Quando vale procurar um advogado
  19. Perguntas frequentes sobre produto com defeito

Você comprou na loja, o produto apresentou problema e começou o percurso conhecido: a loja manda procurar a assistência, a assistência demora, o fabricante diz que é com a loja. O Código de Defesa do Consumidor trata esse cenário com regras próprias e bem mais específicas. Antes de tudo, é preciso separar duas situações que a linguagem cotidiana mistura: não querer mais o produto e o produto ter vício — não funcionar, funcionar mal ou não corresponder ao anunciado. São regimes diferentes, e confundi-los enfraquece reclamações legítimas.

Compra presencial, troca por preferência e vício

A compra feita presencialmente não gera, por si só, o direito legal de arrependimento. O art. 49 é explícito quanto ao campo de incidência: permite desistir do contrato em sete dias "sempre que a contratação de fornecimento de produtos e serviços ocorrer fora do estabelecimento comercial, especialmente por telefone ou a domicílio". A razão é a falta de contato prévio com o produto — e por isso é correto que a loja física recuse a devolução de um produto perfeito que apenas deixou de agradar.

Existe, porém, uma terceira via: a política voluntária de troca que muitas lojas oferecem por decisão própria. A orientação oficial da Secretaria Nacional do Consumidor é direta: nas compras em lojas físicas, a troca por tamanho, cor ou preferência depende da política adotada pelo estabelecimento. Isso não torna a promessa irrelevante — anunciada no cartaz, no site ou pelo vendedor, ela vira oferta, e o art. 30 determina que toda informação ou publicidade suficientemente precisa obriga o fornecedor que a fizer veicular e integra o contrato. Peça-a por escrito.

Nada disso reduz os direitos por produto viciado: havendo vício, valem integralmente os arts. 18, 24, 26 e 50, sem distinção entre o balcão e a internet.

Vício de qualidade e fato do produto

Vício é o defeito que compromete a utilidade do bem. O art. 18, caput, define-o pelo efeito: são vícios de qualidade ou quantidade "que os tornem impróprios ou inadequados ao consumo a que se destinam ou lhes diminuam o valor", e também os decorrentes da disparidade com as indicações da embalagem, da rotulagem ou da publicidade — entra aí tanto o produto que não funciona quanto o que funciona mas não é o que foi anunciado. O § 6º enumera os impróprios ao uso e consumo: validade vencida; deteriorados, adulterados, avariados ou nocivos; e os que "por qualquer motivo, se revelem inadequados ao fim a que se destinam". Some-se o art. 23: a ignorância do fornecedor sobre o vício não o exime de responsabilidade.

O fato do produto, ou acidente de consumo, é outra coisa: o produto causa dano à saúde ou à segurança. O art. 12 define o produto defeituoso como aquele que "não oferece a segurança que dele legitimamente se espera" e responsabiliza objetivamente fabricante, produtor, construtor e importador; o comerciante responde nas hipóteses do art. 13. E o prazo é prescricional de cinco anos (art. 27). Um celular que não carrega é vício; um celular cuja bateria incendeia e queima a mão de quem o segurava é fato do produto — e não se deve transportar automaticamente para o acidente de consumo a solidariedade ampla do vício. Uma nota de vocabulário: na linguagem comum se diz "defeito"; no CDC, o termo técnico é vício, de que trata este artigo.

Vício aparente, vício oculto e natureza do bem

Três recortes organizam os prazos do art. 26. O primeiro é a perceptibilidade: o vício aparente ou de fácil constatação se percebe pelo exame ordinário; o vício oculto só aparece com o uso ou com o tempo. A diferença está no marco inicial — no aparente, o § 1º manda contar da entrega efetiva; no oculto, o § 3º, do momento em que ficar evidenciado o defeito. A classificação não se deduz da manifestação: "parou de funcionar" não diz se o vício era oculto.

O segundo é a natureza do bem: trinta dias para serviço e produtos não duráveis — alimentos, bebidas, cosméticos, higiene — e noventa dias para os duráveis, como eletrodomésticos, eletrônicos, móveis e veículos. A lei não traz lista, e há casos de fronteira: a natureza deve ser afirmada do produto concreto.

O terceiro é a garantia contratual, que não interfere do mesmo modo nos dois tipos de vício: a generalização de que o prazo do art. 26 nunca corre durante a garantia é incorreta. No vício aparente, o STJ é expresso — a reparação deve ser exigida no prazo do art. 26, contado da entrega efetiva, "não fluindo o citado prazo durante a garantia contratual" (REsp 984.106/SC, Quarta Turma, Rel. Min. Luis Felipe Salomão; no mesmo sentido o REsp 547.794/PR, Informativo 463). No vício oculto vale outro critério, tratado adiante, na seção da vida útil.

Vício aparente Vício oculto
Produto não durável 30 dias da entrega efetiva 30 dias da evidenciação do defeito
Produto durável 90 dias da entrega efetiva 90 dias da evidenciação do defeito

A confusão que sustenta a maior parte das recusas se desfaz com três definições. A garantia legal decorre da lei: o art. 24 diz que a garantia legal de adequação "independe de termo expresso, vedada a exoneração contratual do fornecedor". Ela acompanha todo produto, não precisa ser contratada, não pode ser renunciada nem reduzida por política interna, e seus prazos são os do art. 26.

A garantia contratual é a que o fornecedor oferece por vontade própria — os "doze meses do fabricante". O art. 50 define sua natureza em uma palavra: é complementar à legal, conferida mediante termo escrito, que o parágrafo único exige padronizado e esclarecedor quanto ao que consiste a garantia, sua forma, prazo, lugar de exercício e os ônus do consumidor. A garantia estendida é produto à parte, normalmente securitário. Nenhuma das duas reduz a garantia legal: quando a loja diz "sua garantia venceu", fala do prazo contratual.

Os dois prazos e a reclamação que obsta a decadência

O prazo do art. 26 é o prazo do consumidor para reclamar; é decadencial e, esgotado sem reclamação, extingue as pretensões próprias dos arts. 18 e 20 quanto àquele vício. Não alcança o resto: a pretensão indenizatória autônoma se sujeita a prescrição (REsp 1.534.831/DF, Terceira Turma, j. 20/02/2018, Informativo 620 — vícios construtivos em imóvel; o prazo de lá é daquela situação, não geral para produtos), que varia conforme a natureza da pretensão. Não há prazo único para todo produto e todo dano.

O prazo do art. 18, § 1º — trinta dias — é o prazo do fornecedor para sanar o vício: não é prazo de reclamação e não limita o direito do consumidor; a coincidência numérica com o prazo dos produtos não duráveis é o que produz a confusão. Ele admite ajuste: o § 2º permite convencioná-lo entre sete e cento e oitenta dias, e determina que, nos contratos de adesão, a cláusula seja convencionada em separado, por manifestação expressa do consumidor.

O art. 26, § 2º, I, contém a regra que salva muitos direitos: obsta a decadência a reclamação comprovadamente formulada perante o fornecedor até a resposta negativa correspondente, que deve ser transmitida de forma inequívoca. O código não diz "suspende" nem "interrompe": diz que obsta. Duas condições são decisivas: reclamação comprovadamente formulada (ligação sem protocolo não comprova nada) e resposta negativa inequívoca. Guarde a resposta negativa, porque é dela que o prazo volta a correr.

Vencido o prazo, a escolha é do consumidor

Não sanado o vício no prazo, abre-se o núcleo do direito. O art. 18, § 1º, autoriza o consumidor a exigir, "alternativamente e à sua escolha", uma de três providências:

Alternativa Dispositivo O que significa
Substituição art. 18, § 1º, I outro produto da mesma espécie, em perfeitas condições de uso
Restituição art. 18, § 1º, II a quantia paga, monetariamente atualizada, sem prejuízo de perdas e danos
Abatimento art. 18, § 1º, III redução proporcional do preço, ficando o consumidor com o produto

As alternativas são alternativas: escolhe-se uma, e a escolha é do consumidor — "nossa política é só trocar" não encontra apoio na lei depois de esgotado o prazo, e crédito para consumo futuro não equivale à restituição, que é monetariamente atualizada. E a lei ressalva "sem prejuízo de eventuais perdas e danos": optar pelo dinheiro não impede pedir a reparação de prejuízos materiais comprovados.

Quanto à substituição, use a expressão da lei, e só ela: outro da mesma espécie, em perfeitas condições de uso. Dela não decorre automaticamente, sem outra fonte jurídica, que o substituto deva ser novo e lacrado em toda hipótese. O § 4º completa o desenho: não sendo possível a substituição, admite-se outro de espécie, marca ou modelo diversos, com acerto da diferença, sem prejuízo de o consumidor preferir a restituição ou o abatimento.

O mesmo defeito que volta

O cenário é conhecido: o produto vai à assistência, volta "consertado", apresenta o mesmo defeito semanas depois, volta de novo — e a cada retorno se informa que há "trinta dias". Repetido o ciclo, passam-se meses sem que prazo algum se complete.

O STJ tem duas contribuições distintas sobre isso. No REsp 1.297.690/PR assentou-se que não é legítimo impor ao consumidor tentativas indefinidas de reparo, fazendo-o suportar sem limite os ônus da ineficácia dos meios empregados pelo fornecedor — razão de fundo da contagem contínua.

A fórmula de contagem vem do REsp 1.684.132/CE (Terceira Turma, Rel. Min. Nancy Andrighi, 2018), em caso de veículo com quatro manifestações do mesmo defeito em menos de dois meses: havendo sucessivas manifestações do mesmo vício, os trinta dias do art. 18, § 1º, correm de forma contínua, sem reinício e sem suspensão. A mesma fórmula está no REsp 1.734.541/SE — o prazo é contado "sem interrupção ou suspensão, desde a primeira manifestação do vício até o seu efetivo reparo" — e no REsp 2.101.225/BA (j. 15/12/2023), que acrescenta: "não se renovando a cada vez que o bem é levado ao fornecedor".

Lendo isso com a solidariedade da cadeia (art. 18, caput), conclui-se que a contagem também não se fragmenta conforme o consumidor tenha passado pela loja, pela assistência ou pelo fabricante — inferência dessas duas premissas, não frase de nenhum dos acórdãos.

O alcance merece precisão: a contagem contínua responde a sucessivas manifestações do mesmo vício, e não manda somar defeitos diferentes num único prazo. A identidade do defeito é o que precisa ser demonstrado — daí guardar todas as ordens de serviço, com datas de entrada e saída e a descrição do defeito relatado em cada uma.

Uma observação operacional, porque a expressão "primeira manifestação do vício" é dos acórdãos e pode confundir. O prazo de saneamento é do fornecedor para reparar e pressupõe que ele tenha tido a oportunidade de fazê-lo — não corre enquanto o defeito é conhecido só pelo consumidor e o produto nunca foi levado a ninguém. Na prática, o marco útil é o que estiver documentado: a apresentação ou disponibilização do produto ao fornecedor, ou a recusa dele em recebê-lo.

Uso imediato e produto essencial

Nem sempre a espera é exigível. O art. 18, § 3º, permite fazer uso imediato das alternativas do § 1º sempre que, em razão da extensão do vício, a substituição das partes viciadas puder comprometer a qualidade ou características do produto, diminuir-lhe o valor, ou se tratar de produto essencial. Basta um deles.

É no terceiro que o entendimento se atualizou. Ao julgar o REsp 2.226.610/RJ (Terceira Turma, j. 09/06/2026, Informativo 897), o STJ afirmou que "produto essencial" é conceito jurídico indeterminado, que deve ser concretizado em cada caso, considerados aspectos funcionais e contextuais — não sendo possível considerar o aparelho celular, de forma generalizada, produto essencial. O acórdão indica três vetores: a indispensabilidade objetiva, se o bem atende necessidade básica como alimentação, saúde, higiene ou comunicação essencial; a destinação concreta dada pelo consumidor, como o uso como ferramenta de trabalho; e o impacto da privação, se a falta do produto é apta a causar prejuízo relevante à vida cotidiana ou à dignidade.

A consequência corta nos dois sentidos. Não se sustentam listas categóricas do tipo "geladeira, fogão e celular são sempre essenciais" — a essencialidade é relacional —, mas tampouco a negativa genérica da loja: um mesmo aparelho pode ser essencial para quem dele depende profissionalmente e não o ser para quem tem alternativas. A regra ordinária permanece sendo o saneamento em até trinta dias, e quem invoca o § 3º precisa demonstrar o pressuposto que o autoriza.

Contra quem reclamar

O empurra-empurra — "isso é com o fabricante" — encontra resposta no texto legal. O art. 18, caput, faz os fornecedores responderem solidariamente pelos vícios, e reforçam a solidariedade o art. 7º, parágrafo único, e o art. 25, § 1º: o consumidor pode exigir a solução de qualquer um deles.

No REsp 1.634.851/RJ (Terceira Turma, Rel. Min. Nancy Andrighi, j. 12/09/2017, Informativo 619), o STJ assentou que cabe ao consumidor a escolha para exercer o direito de ter o vício sanado em trinta dias — levar o produto ao comerciante, à assistência técnica ou diretamente ao fabricante. Não é correto, portanto, dizer que ele esteja sempre obrigado a procurar primeiro a assistência. Ressalva: essa solidariedade ampla é a do vício; para o fato do produto o regime é outro, e a responsabilidade do comerciante se dá nas hipóteses do art. 13.

Vício oculto e vida útil do bem

O defeito surgiu depois do prazo do certificado do fabricante — acabou? Não necessariamente. No REsp 984.106/SC firmou-se que o prazo decadencial para reclamar de vício oculto inicia-se no momento em que ficar evidenciado o defeito, observado o critério da vida útil do bem — o Código, no § 3º do art. 26, "adotou o critério da vida útil do bem, e não o critério da garantia", de modo que o fornecedor pode responder mesmo depois de expirada a garantia contratual.

Há ainda a hipótese intermediária: o vício oculto que se revela durante a garantia contratual. No REsp 1.734.541/SE (Terceira Turma, Rel. Min. Nancy Andrighi, j. 13/11/2018), abre-se ao consumidor uma faculdade — acionar a garantia contratual, segundo os termos do contrato, sem que contra ele corra o prazo do art. 26, ou exercer a garantia legal do art. 18, § 1º, dentro desse prazo —, assentando o acórdão que as duas garantias não se sobrepõem. Isso não torna seguro esperar: tudo depende da data em que o defeito se tornou perceptível, e documentá-la fortalece o marco inicial; o ônus da prova segue as regras processuais e o caso concreto. Reclame de forma documentada assim que o vício aparecer.

No REsp 1.787.287/SP (Terceira Turma, Rel. Min. Villas Bôas Cueva), reconheceu-se a responsabilidade do fornecedor por defeito oculto manifestado fora do prazo de garantia contratual. As circunstâncias sustentam a conclusão: geladeira e micro-ondas com falhas cerca de três anos e sete meses após a compra; vida útil considerada no processo, conforme a documentação, de nove anos; e nenhuma comprovação de uso inadequado.

Duas cautelas dão ao argumento a força que ele tem. Vida útil não é tabela: não existe relação oficial de anos por tipo de produto, e inventá-la seria trocar a análise do caso por um número sem fonte — o que se demonstra é a expectativa legítima de durabilidade daquele bem concreto. E garantia contratual vencida não elimina automaticamente a responsabilidade por vício oculto, mas também não a torna eterna: é preciso distinguir o defeito oculto de fabricação do desgaste natural. A análise é casuística e depende de prova.

Produto usado, mostruário e avaria conhecida

A lógica de fundo é a mesma nas quatro situações: o que se compra é aquilo que foi informado, e o preço reflete essa informação. O produto usado adquirido de fornecedor tem garantia legal; o que se ajusta não é a garantia, mas o padrão que ela protege — o vício é aferido pelo estado em que o bem foi vendido, sua idade e o preço pago. Desgaste compatível com o uso anterior não é vício; falha que frustra a utilidade esperada continua sendo. O mostruário segue o mesmo raciocínio, e o produto em liquidação ou promoção mantém a garantia legal integralmente: preço reduzido não é renúncia a direito, e o art. 24 veda a exoneração contratual da garantia, de modo que aviso de "promoção sem troca" não produz o efeito que anuncia — orientação que o Ministério da Justiça também divulga.

O produto vendido com avaria conhecida — o clássico "vendido no estado" — exige mais cuidado. O ponto de apoio não é uma suposta exclusão legal de garantia, que não existe: são os deveres de informação (art. 31) e de conformidade com a oferta (art. 30), mais o art. 18, caput, que trata como vício a disparidade com as indicações prestadas. A condição claramente informada e aceita integra o contrato e não pode ser reclamada depois; mas o abatimento por uma avaria conhecida não autoriza o fornecedor a ocultar outros vícios, e o defeito não informado permanece coberto.

Vício redibitório

Vício redibitório é a categoria do Código Civil para o defeito oculto em contrato comutativo: o art. 441 permite enjeitar a coisa por vícios ocultos "que a tornem imprópria ao uso a que é destinada, ou lhe diminuam o valor", e o art. 442 faculta o abatimento no preço. É regime de direito comum, pensado para partes em posição equivalente.

Havendo relação de consumo, a referência principal é outra. O CDC é lei especial e protetiva, com regime próprio — solidariedade da cadeia, garantia legal irrenunciável, prazo de saneamento, escolha do remédio pelo consumidor e marco inicial na evidenciação do vício oculto. O ponto de atenção é concreto: os prazos civis são mais curtos e contados de modo diverso, já que o art. 445 fixa trinta dias para bens móveis a partir da entrega efetiva e o seu § 1º, para o vício conhecido mais tarde, conta da ciência até o máximo de cento e oitenta dias. Aplicá-los a uma relação de consumo encurtaria a proteção do CDC, afastando inclusive o critério da vida útil. Por isso não se deve importá-los automaticamente, nem tratar "vício redibitório" como sinônimo técnico perfeito de todo vício do produto: o conceito civil alcança apenas o defeito oculto, ao passo que o art. 18 abrange também o vício aparente e a disparidade com a oferta.

Exemplos na prática

Cenários ilustrativos, não casos reais.

Eletrodoméstico. Ana comprou uma máquina de lavar e, no segundo mês, o tambor travou. Reclamou por e-mail no mesmo dia e guardou a ordem de serviço; passados trinta e cinco dias sem devolução, comunicou por escrito que optava pela restituição da quantia paga, atualizada.

Roupa. Bruno comprou uma calça e concluiu, em casa, que o tamanho não ficou bom. Não há vício: é troca por preferência, que depende da política da loja. Diferente seria a costura que se desfaz na primeira lavagem.

Móvel. Carla recebeu um armário cuja porta não fecha. Como o produto está com ela e o remédio ordinário é o saneamento, o caminho começa pela reclamação formal e pela contagem dos trinta dias. Se o reparo comprometer a qualidade ou o valor do móvel, o § 3º autoriza a escolha imediata — o que precisa ser descrito, não afirmado.

Celular. Daniel teve o aparelho parado por defeito de carregamento e trabalha como entregador por aplicativo, demonstrando que o celular é o instrumento de que depende sua renda — destinação concreta e impacto da privação, os vetores do REsp 2.226.610/RJ. O enquadramento depende das circunstâncias comprovadas.

Veículo. Elisa comprou um carro novo que retornou quatro vezes à concessionária pela mesma falha elétrica, somando cinquenta e dois dias parado — contagem contínua do REsp 1.684.132/CE, desde que as ordens de serviço demonstrem tratar-se do mesmo vício.

Como provar e de quem é o ônus

A documentação decide mais casos do que o argumento jurídico. Guarde o comprovante de compra, o termo de garantia, todas as ordens de serviço com datas de entrada e saída, os protocolos, fotos do defeito e os comprovantes dos prejuízos.

Sobre o ônus da prova é preciso ser exato. O art. 6º, VIII, prevê a facilitação da defesa do consumidor, "inclusive com a inversão do ônus da prova, a seu favor, no processo civil, quando, a critério do juiz, for verossímil a alegação ou quando for ele hipossuficiente" — a inversão, logo, não é automática.

Isso não deixa o consumidor desarmado diante da alegação de mau uso. Uma negativa técnica genérica — a anotação manuscrita "oxidação" ou "uso indevido" na ordem de serviço, sem exame, sem fotografia e sem explicação da relação entre conduta e dano — nada demonstra. A providência correta é exigir por escrito a conclusão técnica, as razões da negativa e os registros do diagnóstico, com identificação do responsável. Foi nesse terreno que se decidiu o REsp 1.787.287/SP: ali o fornecedor não demonstrou uso inadequado e o vício apareceu dentro da vida útil considerada no processo — é o alcance da decisão, não uma regra geral sobre qualquer laudo. Quando a causa do defeito é o próprio ponto controvertido, a prova técnica passa ao centro; para bens de valor modesto, porém, o custo da perícia pode superar o benefício.

Dano moral

O dano moral não é consequência automática do vício, do atraso no reparo ou da negativa da garantia. A lei assegura sempre a solução do vício e a reparação dos prejuízos materiais comprovados; o dano extrapatrimonial é outra categoria, cujo reconhecimento depende das circunstâncias — intensidade e duração da privação, repercussão na vida da pessoa, conduta do fornecedor e prova de tudo isso.

Três situações não se confundem: o prejuízo material, que se pode medir; o mero inadimplemento contratual, que isoladamente não basta; e a lesão extrapatrimonial indenizável, que exige algo além e precisa ser provada.

Quais pedidos você pode fazer

Pedido Fundamento Quando cabe
Saneamento do vício CDC art. 18, caput Desde a constatação do vício, dentro do prazo de reclamação
Substituição do produto CDC art. 18, § 1º, I Vício não sanado no prazo, à escolha do consumidor
Restituição da quantia paga, atualizada CDC art. 18, § 1º, II Idem — à escolha do consumidor
Abatimento proporcional do preço CDC art. 18, § 1º, III Idem — quando se quer ficar com o produto
Uso imediato das alternativas CDC art. 18, § 3º Vício extenso, perda de valor ou essencialidade no caso concreto
Entrega de produto íntegro ou dos itens faltantes CDC art. 18, caput e § 6º; arts. 30 e 35, I Avaria na entrega ou item anunciado e não entregue
Reparação de danos materiais CDC art. 18, § 1º, II Prejuízos comprovados decorrentes do vício
Reconhecimento da garantia legal CDC arts. 24 e 26 Recusa fundada apenas no fim da garantia contratual

A escolha entre as três alternativas do § 1º é o núcleo do direito: diga qual delas se exerce.

Reclamação administrativa e passo a passo

Antes ou paralelamente à via judicial, a reclamação administrativa costuma resolver — e, quando não resolve, produz prova. O Consumidor.gov.br é a plataforma oficial de solução de conflitos; o Procon atende gratuitamente.

Cabe uma ressalva que muita orientação omite: nem todo registro nessas plataformas obsta a decadência. O art. 26, § 2º, I, exige reclamação comprovadamente formulada perante o fornecedor. Para produzir esse efeito, o registro precisa trazer pretensão efetivamente formulada — dizer o que se quer, não apenas narrar —, estar dirigido ao fornecedor identificado e haver comprovação de ciência inequívoca por ele. Guarde o protocolo e o conteúdo exato enviado, com data.

Denúncia genérica, registro meramente informativo ou reclamação que a empresa nunca recebeu servem à fiscalização, mas não substituem a reclamação dirigida ao fornecedor. Reclame também diretamente à empresa, tratando a via administrativa como reforço.

  1. Identifique a situação: arrependimento, troca por preferência ou vício? Só o terceiro segue este roteiro.
  2. Reclame formalmente assim que o defeito aparecer, por canal que gere registro — é o que obsta a decadência (art. 26, § 2º, I).
  3. Exija a ordem de serviço com data de entrada e descrição do defeito; na devolução, a data de saída e o relato da intervenção.
  4. Some os dias de indisponibilidade pelo mesmo defeito.
  5. Verifique se o § 3º se aplica — extensão do vício, perda de valor ou essencialidade.
  6. Vencido o prazo, comunique por escrito qual das três alternativas escolhe.
  7. Registre reclamação no Consumidor.gov.br e no Procon, também ao fabricante.
  8. Ajuíze a ação se necessário: no Juizado Especial Cível, causas de até vinte salários mínimos dispensam advogado.

Quando vale procurar um advogado

Para produtos de valor moderado, com documentação organizada, a via administrativa resolve boa parte dos casos, e o Juizado Especial Cível permite atuação sem advogado dentro do seu limite. O acompanhamento técnico tende a se justificar quando o valor é expressivo, quando há prejuízos materiais relevantes a quantificar, quando a empresa alega mau uso com laudo, quando o caso envolve vício oculto tardio e quando a essencialidade precisa ser demonstrada.

Perguntas frequentes sobre produto com defeito

Comprei na loja física e me arrependi. Posso devolver em 7 dias? O arrependimento do art. 49 alcança a contratação feita fora do estabelecimento comercial. A compra presencial não o gera por si só, e a troca por preferência depende da política da loja, que vincula nos limites anunciados. Havendo vício, valem os direitos do art. 18.

O produto voltou três vezes pelo mesmo defeito. O prazo recomeça? Não. No REsp 1.684.132/CE, reafirmado no REsp 2.101.225/BA, fixou-se que, em sucessivas manifestações do mesmo vício, os trinta dias correm de forma contínua e não se renovam a cada retorno — o que exige demonstrar, pelas ordens de serviço, tratar-se do mesmo defeito.

Depois do prazo, quem escolhe entre troca, dinheiro e abatimento? O consumidor: o art. 18, § 1º, diz "alternativamente e à sua escolha". O substituto deve ser outro da mesma espécie, em perfeitas condições de uso; não sendo possível, o § 4º admite espécie, marca ou modelo diversos, com acerto da diferença.

Meu celular quebrou. Posso exigir a troca na hora, por ser essencial? Depende das circunstâncias. No REsp 2.226.610/RJ o STJ decidiu que o celular não é automaticamente produto essencial: afere-se caso a caso, pela indispensabilidade objetiva, pela destinação concreta e pelo impacto da privação. A regra segue sendo aguardar o saneamento, salvo as hipóteses do § 3º.

A loja mandou eu procurar o fabricante. Sou obrigado? Não. A responsabilidade é solidária (art. 18, caput) e, no REsp 1.634.851/RJ, o STJ assentou que cabe ao consumidor escolher entre comerciante, assistência técnica e fabricante.

A garantia do fabricante venceu. Ainda tenho direito? Pode ter. Em vício oculto o prazo conta da evidenciação, observado o critério da vida útil, e não o da garantia (REsp 984.106/SC). Se o vício oculto se revelou durante a garantia contratual, o REsp 1.734.541/SE assegura a escolha entre acioná-la, sem que corra o prazo do art. 26, ou exercer a garantia legal dentro desse prazo. Em qualquer caso, reclame de forma documentada assim que o defeito aparecer.

Reclamei e a empresa nunca respondeu. Perdi o prazo? Provavelmente não: a reclamação comprovadamente formulada obsta a decadência até a resposta negativa inequívoca (art. 26, § 2º, I).

Tenho direito a indenização por dano moral? Depende: o vício, o atraso ou a negativa não geram dano moral automático. A lei assegura a solução do vício e a reparação dos prejuízos materiais comprovados; a indenização extrapatrimonial depende da duração da privação, da repercussão concreta e da prova.